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    EU SOU A LENDA NO CINEMA



    MORTOS QUE MATAM (1964)

    Sabe aquele filme que o Will Smith é o único sobrevivente na Terra, onde o bacon não estraga depois de três anos? Pois bem, lá atrás, antes dessa superprodução, o livro Eu Sou a Lenda de Richard Matheson ganhou sua primeira adaptação em 1964, com o título no Brasil de Mortos que Matam.

    Nessa produção ítalo-americana, Vincent Price interpreta o último homem na terra (título original do filme), e tem o mundo só para ele durante o dia, porque quando a noite cai, todos os sobreviventes do globo foram transformados em terríveis mutantes / vampiros / zumbis, como você preferir, graças a uma praga de proporções bíblicas que devastou a humanidade.

    Com o roteiro escrito pelo próprio Matheson, usando o pseudônimo de Logan Swanson, o filme conta a história de Robert Morgan (Price) cientista imune a esse peste biológica mortal, que sobrevive ao cataclismo só para viver no limite da sanidade mental, sozinho, isolado em sua casa, dividindo suas tarefas durante as manhãs quando precisa vasculhar a cidade deserta de Washington em busca de espelhos, alho, gasolina e jogar os corpos encontrados em uma imensa vala comum em chamas, e durante a noite se defender das criaturas que vagam pela terra e querem invadir sua casa e destruí-lo.

    Apesar das criaturas serem consideradas vampiros, já que elas dormem durante o dia e apenas saem à noite, se alimentam de sangue, terem repulsa ao alho e a ver sua própria imagem no espelho, e só poderem ser mortas com uma estaca no coração, suas aparências e características mais parecem as de zumbis. Quatro anos antes de A Noite dos Mortos-Vivos, vemos os maltrapilhos inumanos se arrastando de forma devagar e desordenada, tentando entrar na casa do Dr. Morgan se aglomerando contra a porta e batendo nela e nas janelas sem parar, exatamente como os zumbis de Romero. A grande diferença é que aqui eles são capazes de articular palavras e usar instrumentos rudimentares como paus e pedras.

    Como a epidemia se espalhou e como atingiu a família do Dr. Morgan é contado através de um flashback na metade do filme, situando o espectador dos acontecidos e da tragédia pessoal vivida pelo personagem solitário, já que como cientista não conseguiu encontrar uma cura para o vírus mortal e viu sua família padecer desse mal. Completamente cético, ao não deixar sua mulher depois de morta ser levada para a vala comum e ser incinerada, Morgan da forma mais dolorosa é obrigado a encarar a realidade, quando sua esposa volta para casa infectada e transformada em uma vampiro / zumbi.

    A trama dá uma guinada quando o Dr. Morgan descobre que não está sozinho, e que há um grupo de sobreviventes por aí lá fora. Mas diferente dele, eles fazem parte de uma nova raça que se utiliza de uma vacina para impedir que se transformem em mutantes autômatos, e pretendem recomeçar a colonizar o planeta, vivendo somente à noite, mas não antes de se vingar daquele que é considerado “a lenda” e tem matado vários dos seus pela manhã. Ou seja, ele é uma minoria, e em um mundo onde há uma nova ordem mundial, comandando pelos infectados. Isso faz com que o personagem de Price acabe se tornando uma aberração para eles, um pária.

    Mortos que Matam é até simplório, com efeitos especiais e de maquiagem bem simples, devido ao baixo orçamento. Mas funciona muito bem, pois o roteiro enxuto é interessantíssimo. Alguns momentos ele fica arrastado, sem ritmo, como por exemplo durante o extenso flashback que poderia ter sido transformado em pequenas histórias paralelas no decorrer do longa. Mas o que mais vale a pena, mais uma vez é a atuação de Price, sustentando 86 minutos de projeção quase que sozinho, praticando diversos monólogos e lutando contra a histeria de ficar mais de três anos sem o contato com nenhum outro humano. Destaque para uma cena em que ele assiste a um vídeo em super 8 e começa a dar uma risada insana, como se sua razão estivesse por um fio, para no segundo seguinte, começar a chorar de desespero e solidão. Fantástico.


    A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA (1971)

    A Última Esperança da Terra é a segunda incursão ao cinema do livro clássico de Richard Matheson, que já havia sido adaptado antes no ótimo Mortos que Matam, com Vincent Price no elenco, e mais tarde, na super produção Eu Sou a Lenda, com Will Smith fazendo às vezes do único humano sobrevivente da face do planeta.

    Talvez o mais clássico filme dos três, principalmente por conta de sua visão peculiar dos infectados, aqueles que não morreram devido ao poderoso vírus que dizimou a população mundial graças a uma epidemia de proporções bíblicas, e ao invés de se tornarem zumbis/ vampiros como no livro ou nos dois outros filmes, anterior e posterior, acabaram sendo representadas por criaturas albinas mutantes, fotossensíveis, que vestido em seus trajes negros com capuz, se organizam em uma seita chamada A Família, que tem como único objetivo reconstruir nossa sociedade longe dos perigos tecnológicos e científicos (considerados hereges por eles), não repetindo os erros do passado, e se livrar o Homem Ômega, Robert Neville, vivido por Charlon “Ben-Hur” Heston.

    Neville, outrora proeminente cientista, desenvolveu uma vacina especial para tentar acabar com a praga, liberada por uma guerra biológica entre a União Soviética e a China (malditos comunistas!), porém ainda sem testá-la, sobrevive a um acidente de helicóptero (onde deveria ter morrido, já que o mesmo se espatifou no chão e explodiu, mas ele é o Ben-Hur, Moisés, George Taylor, né, então…) e injeta a vacina em si antes que seja infectado pelo vírus que abateu o piloto da aeronave. Com isso, Neville cria anticorpos e torna-se imune a pandemia global, sendo o único sobrevivente de uma Los Angeles vazia.

    Durante o dia, ele passa seu tempo tentando desenvolver uma cura, descobrir o covil da Família, conseguir gasolina, assistir no cinema Woodstock repetidas vezes e “fazer compras” na cidade. Durante a noite, ele precisa lutar por sua vida, quando o bando fundamentalista-albino-mutante liderado por Matthias (Anthony Zerbe) tenta destruí-lo com tochas e catapultas, e para relaxar, às vezes joga xadrez com um manequim que usa quepe e frita linguiças (que não estragou após dois anos, assim como o famoso bacon de Eu Sou A Lenda que não estragou depois de três).

    Com todo respeito, Heston não chega aos pés de Vincent Price. Enquanto a atuação do mestre é contida e ao mesmo tempo, carregada de enorme carga dramática enquanto aos poucos ele vai perdendo a sanidade, devido a solidão, ao confinamento e ao desespero, o sobrevivente de Heston é um caricato republicano machão, atlético, herói de uma nação, invencível com sua metralhadora, que dispara tanto quanto suas piadinhas sarcásticas e autoconfiança exacerbada. E essa é a tônica do filme na verdade. Um sci-fi de ação que esquece o lado claustrofóbico e vampiresco da trama do filme anterior e do livro, substituindo por socos, pontapés, escapadas e conotações racistas e xenofóbicas subliminares.

    E ainda acentuando mais o clima de escracho, quando Neville descobre que não está sozinho, ele encontra um grupo liderado por Lisa, uma heroína que parece ter saído diretamente de um filme blaxsploitation, que não demora muito a cair nos encantos de Heston com seu grande sorriso de cavalo esbranquiçado. Algumas das cenas entre os dois (e também alguns diálogos).

    A direção de Boris Sagal, mais famoso por dirigir filmes para TV, também deixa muita a desejar, sem ousar nem um pouco, parecendo que você está assistindo um loop contínuo, com os personagens passando exatamente pelas mesmas situações durante todos os 98 minutos do filme. Muito disso por conta do desenrolar do roteiro escrito a quatro mãos, pelo casal John e Joyce Corrington, que poderia explorar os diversos meandros e características psicológicas e sociais que um filme desse porte poderia conter, ainda mais introduzindo o elemento da Família, seres racionais e dotados de uma forte doutrina ludita e teocrática, que acabaram substituindo os simples, porém eficazes vampiros/ zumbis do livro.

    Para quem gosta de Os Simpsons, um dos episódios da Casa da Árvore dos Horrores, o famoso especial de Halloween, chamado The Omega Man, é exatamente uma paródia de A Última Esperança da Terra, quando Homer sobrevive a um cataclismo nuclear, devido a um entrevero entre Springfield e a França, escondendo-se em um abrigo antibomba, e ao sair, é o único homem vivo, sendo perseguido pelos mutantes, composto pelo resto da população de cidade. Ao chegar na sua antiga casa, encontra a sua família viva graças as imensas camadas de chumbo contidas na tinta que os protegeu da radiação. A cena de Homer dançando pelado na igreja cantando War de Edwin Star é impagável. 

    Por fim, um filme fraco que eu adoro.
    Feio, mas charmoso.

    EU SOU A LENDA (2007)

    Parece sonho de moleque: ter uma cidade inteirinha à disposição, para entrar na loja que quiser, pegar o que quiser sem pagar, nem ter que dar satisfação pra ninguém. Um "sonho", porém, retratado como um terrível pesadelo em "Eu Sou a Lenda", misto de drama, horror e ficção científica dirigido for Francis Lawrence, o mesmo de "Constantine".

    Intrigante, a boa trama é ambientada num futuro muito, muito próximo, onde o cientista e militar Robert Neville (Will Smith, em excelente momento) é o último sobrevivente humano de toda a cidade de Nova York. Talvez do mundo. O motivo foi um vírus devastador que matou bilhões de pessoas em poucos anos. E transformou em vampirescos zumbis os poucos sobreviventes. Menos Neville, misteriosamente imune à doença. Acompanhado apenas pela sua cadela, seu cotidiano agora se resume a "alugar" DVDs durante o dia, e se trancar em seu bunker-casa-laboratório à noite, período em que os zumbis estão à solta. Entre uma coisa e outra, continua buscando a cura para o tal vírus.

    O clima de tensão e desespero é total. Não apenas pela constante ameaça dos mortos-vivos, como pela profunda solidão que assola o personagem, obrigando-o a "conversar" com manequins para não enlouquecer. O diretor Lawrence, que iniciou sua carreira nos videoclipes, finalmente ousou o que nenhum blockbuster hollywoodiano tem ousado ultimamente: utilizar o silêncio como formador de clima de suspense, e não irritar os espectadores com doses maciças e insuportáveis de trilha sonora. Os ouvidos da platéia e bom gosto cinematográfico agradecem. 

    Alguns erros de continuidade no crescimento da barba de Neville, e momentos em que a movimentação dos zumbis se torna "digital demais" não são falhas grandes o suficiente para tirar os méritos deste filme que não subestima a inteligência do público. E entre estes méritos destaca-se a participação - pequena mas marcante - da atriz brasileira Alice Braga, que abre assim uma porta das mais felizes para o mercado internacional.

    Os mais velhos (ou os mais antenados na história da televisão) podem até dizer que "Eu Sou a Lenda" parece um episódio da antiga e cultuada série "Além da Imaginação". Parece mesmo. E não é à toa: o roteiro é baseado no livro de Richard Matheson, escritor responsável pela autoria de nada menos que 16 episódios do clássico seriado. E mais: Matheson escreveu também episódios das séries "Combate", "Amazing Stories", "Jornada nas Estrelas", e de dois clássicos da tela grande: "O Incrível Homem que Encolheu" e "Encurralado", filme que revelou o talento de Steven Spielberg.

    "Eu sou a Lenda" é o terceiro longa baseado no mesmo texto de Matheson. O primeiro, de 1964, tinha Vincent Price no papel principal, enquanto o segundo, de 1971, foi protagonizado por Charlton Heston.

    Agora, com Will Smith à frente, prova-se mais uma vez que um filme comercial, para ser sucesso, não precisa ser nivelado por baixo. Que o digam os mais de US$ 240 milhões arrecadados por ele nas bilheterias dos EUA.


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