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    TRÊS HOMENS EM CONFLITO (1966) - ANÁLISE CRÍTICA




    FICHA TÉCNICA


    (The Good, The Bad and The Ugly)
    Direção: Sergio Leone
    Roteiro: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni, Sergio Leone
    Produção: Alberto Grimaldi
    Ano: 1966
    Elenco: Clint Eastwood, Eli Wallach, Lee Van Cleef...
    Duração: 161 minutos


    A maior (ou segunda maior, vide "era uma vez no oeste") obra-prima do western spaghetti vem recheada com um sabor de Sergio Leone e um elenco para satisfazer qualquer olhar crítico

    SINOPSE

    Na trama, que se passa durante a guerra civil americana, os personagens descobrem a existência de uma quantia de duzentos mil dólares que foram enterrados em um cemitério após um roubo, Tuco sabe em qual cemitério o dinheiro fora escondido, mas apenas o 'Loirinho', seu antigo comparsa, sabe sob qual túmulo a quantia fora enterrada. Lee Van Cleef, o primeiro dos três a descobrir a existência deste dinheiro, arranca as informações que Tuco guardava consigo e parte também rumo ao cemitério. Ao acompanhar a trajetória dos três pistoleiros, o filme retrata a guerra civil americana e seus horrores como pano de fundo. Apesar de se associarem a um lado ou a outro em dados momentos, os personagens não se envolvem na guerra por questões ideológicas, eles apenas tentam tirar proveito dela visando seus interesses pessoais.

    EU E O FILME

    Se em algum momento da minha vida, estou de mau humor, não assisto Debi Loide, ou o Maskara. Definitivamente, assisto "3 homens em conflito".
    Tenho todas as edições em dvds que saíram, os blu rays, e ainda comprei um blu ray Francês.
    Sou fanático com o filme
    Assisto anualmente, e já assisti umas 30 vezes...

    O FILME

    Três Homens em conflito (título no Brasil) é o último filme da tão aclamada “Trilogia dos dólares”. Até ali, o estilo de Leone para dirigir um filme já estava definido: close nos rostos suados e sujos, um bom tempo sem qualquer fala, ótimos enquadramentos em busca do perfeccionismo, humor ácido, momentos que pegam o espectador de surpresa com cortes emocionantes e um ótimo suspense no ar, com as músicas do maestro Ennio Morricone. Tudo que o cinema do “bang-bang” merece. Esta trinca de películas deu vida nova ao gênero, que parecia estar caindo no ostracismo nos Estados Unidos, deu notoriedade e reconhecimento para o Sergio Leone e ainda revelou um jovem, até então desconhecido, chamado Clint Eastwood, cujo personagem, o lendário homem sem nome, se tornaria um ícone, um símbolo de todo um gênero e de uma época de desconstrução das identidades, como foram os anos 60. O surgimento do mito, no entanto, não se deu por acaso, Leone tinha plena ciência do que estava fazendo, ele estava disposto a criar uma lenda e de fato o conseguiu.

    O filme é considerado a obra-prima do faroeste, tanto por causa da direção do italiano Sergio Leone, quanto pelo elenco clássico: Clint Eastwood interpreta o papel de Blondie (Loirinho) e também é apresentado como “O Bom” (que, apesar do nome, não é tão bom assim); Lee Van Cleef é Angel Eyes (Olhos de Anjo) e também “O Mau” (este sim merece o nome que recebeu); e o papel do “Feio” (cujo verdadeiro nome no filme é Tuco Benedicto Pacífico Juan-Maria Ramirez) fica para Eli Wallach, atuando espetacularmente e sendo o principal ator da trama, conseguindo ser engraçado e ao mesmo tempo vingativo, chamando a atenção de todos.

    O personagem de Eastwood, por sua vez, é construído para tal, ele é uma personificação da virilidade, da constância e de um instinto frio e calculista. A relativa falta de profundidade que pode ser notada em sua composição é intencional, na verdade eu atribuo a ela a facilidade com que assimilamos aquilo que o ele representa na trama. Acredito que ele possuísse um nível maior de complexidade em sua criação, isso poderia torná-lo controverso, dúbio e sendo assim mais difícil de ser assimilado. Ele, apesar de ser misterioso, não deixa dúvidas quanto ao que de fato é a sua natureza. Ele é tão somente aquilo que faz, ou melhor, aquilo que nós expectadores vemos ele fazer, toda sua composição se resume a isso e por ser de tal forma, podemos entender cada passagem na qual ele aparece como uma parte de um processo de afirmação dos signos, dos quais ele é composto.

    Lee Van Cleef dá vida ao terceiro pistoleiro, ao qual o título se refere como o 'mal' (ou 'o bruto', no original), ele é o típico vilão, cuja função é estabelecer o conflito dramático e uma oposição à altura para o protagonista, sua construção é similar à do herói, tal como este, ele é tão somente aquilo que vemos na tela, ele também não tem história e sua motivações também não são claras; sabemos que ele é ganancioso e covarde o suficiente para fazer qualquer coisa para atingir seu objetivo e isso é o que basta. Porém, diferente do que acontece com o 'bom', sua figura não é exaltada pelos enquadramentos e demais elementos cinematográficos, o que se sobressai de sua imagem é apenas a ameaça que ele representa para os outros dois personagens. Ele seria apenas mais um suporte para a construção da identidade icônica do herói.

    Quem ensaiar interpretações mais profundas, perceberá que os três personagens são arquétipos de nossa própria sociedade, pode parecer uma análise um tanto exagerada, mas vejo no antagonismo entre o 'bom'  (que nem sempre é bom) e o 'mal' (que não é tão mal, se comparado aos outros dois), uma metáfora para o embate ideológico entre socialismo e capitalismo, tão em voga na época em que o filme foi produzido. Seguindo esta linha de pensamento, o 'feio' seria a personificação do povo, que flerta ora com um, ora com outro, em busca de objetivos, que aparentemente nunca serão alcançados. Não por acaso, apesar de não ser o herói da história, o personagem de Eli Wallach é aquele com o qual mais facilmente podemos nos identificar, afinal de contas ele é o único cuja composição vai além de meras representações, ele tem família, um passado e sua motivação principal é transcender sua própria condição (o que ele acredita que acontecerá quando finalmente for rico)...

    Ousadas ou não, Três Homens em Conflito permite inúmeras outras interpretações acerca de sua trama e isso depende exclusivamente da forma com que cada espectador decodifica cada um de seus elementos. Mas, ainda que ele seja visto como mera diversão, ele continuará sendo a obra-prima que é, pois ele também funciona como um ótimo entretenimento. Sergio Leone com a ajuda do lendário maestro Ennio Morricone (um outro monstro sagrado) consegue emprestar para cada sequência uma aura, que a torna sublime e capaz de despertar em cada cinéfilo as mais diversas sensações, que vão da apreensão diante de um duelo de pistoleiros à contemplação das lacações capturadas através de belíssimas tomadas abertas. A trilha sonora do filme é uma preciosidade à parte (o tema principal, que leva o seu nome, é por si só um clássico), ela é usada a favor da construção do mito já citado e ainda para pontuar emoções e sensações experimentadas pelos personagens, como na passagem memorável em que o Tuco corre deslumbrado pelo cemitério onde o dinheiro estaria escondido.

    Em sua primeira hora, tudo é mostrado referindo-se com os personagens (suas características principais, seus costumes, etc) e por isso o filme só passa a ter sentido depois. Com uma introdução de quase três minutos, mostra-se o nome de todos os participantes da obra cinematográfica; os dez minutos iniciais do filme não possuem nenhuma fala. O primeiro tiroteio acontece para apresentar Tuco, o Feio, o qual mata dois dos três caçadores-de-recompensa que tentavam pegá-lo. Depois é Angel Eyes, o Mau, mostrando sua crueldade e voracidade, tudo apenas para ver dinheiro na frente. E por último é Blondie, o Bom, salvando Tuco de uma armadilha, porém entregando-o para a justiça e recebendo uma boa grana. Após isso, os dois se juntam para ganhar dinheiro: Tuco era levado por Blondie para ser enforcado, o loirinho recebia a recompensa, e justo na hora do enforcamento, ele salvava Tuco, dividindo o dinheiro com seu parceiro. 

    E é a partir desta união que as trapaças começam: Blondie deixa Tuco no meio do deserto, sem água e muito longe da cidade. O sujeito consegue sobreviver, volta para a cidade e faz o mesmo com Blondie. Daí que eles descobrem Bill Carson, falso nome de Jackson, o qual escondia um tesouro em um cemitério. Enquanto Blondie sabia a campa em que ficava o tesouro, Tuco sabia qual era o cemitério e Angel Eyes apenas queria saber onde Bill Carson se escondia, para saber estas duas pistas já descobertas por Blondie e Tuco. Por conta do tesouro, a rivalidade e as trapaças passam a ser maior do que a falsa amizade que existiam entre eles. Após esta primeira hora de filme interpretada anteriormente, tudo passa a ter sentido, já que a partir dali o filme gira em torno dos três pistoleiros em busca do tesouro. Mesmo que o filme possua quase 3 horas, você não vê a hora passar, tudo é feito inteligentemente, para prender a atenção, sem deixar que a pessoa se canse facilmente.

    Outro fator importante para o filme é a trilha sonora. Ennio Morricone se superou neste filme, sendo a trilha sonora mais conhecida de todas as suas obras já feitas. Talvez até mesmo alguém que não tenha assistido ao filme conheça a faixa principal, interpretada  pela “Orquestra de Ukuleles da Grã-Bretanha”: Outra característica impossível de se deixar passar é a capacidade de organização da equipe: lugares das filmagens, figurinos da época, escolha dos atores, roteiro, trilha sonora, etc...

    Já no fim do filme, cenas marcantes em um curto período de tempo são mostradas, como a explosão da ponte, o soldado morrendo e o duelo final. Aliás, o duelo final é magnífico, como todo o filme. Enquanto a música toca ao fundo, os três pistoleiros se ajeitam em seu canto no centro do cemitério. Olhares frios, severos, concentrados e mais que tudo: importantes. A música para. É agora? Não. Você se prende mais ao filme. A música volta a tocar. Mais suspense, mais olhares. É agora? Ainda não. A mão se aproxima cada vez mais da arma... e quando você vê, já foi. O Mau no chão, morto pelo Bom, o Feio tentando, mas sem nenhuma bala, trapaceado pelo seu “amigo” Blondie. Dois sobreviventes do trio mais marcante da história do cinema western.

    Três Homens em Conflito é um filme irretocável que beira à perfeição. Dizer que ele é um dos melhores westerns já realizados não chega nem perto de fazer jus à importância que ele teve para a sétima arte. Ele transcendeu o gênero que o criou para se tornar algo muito maior, eu ousaria incluí-lo no seleto grupo formado pelas melhores, mais importantes e influentes obras de todos os tempos. Um resultado do perfeccionismo de Leone, que aparenta se preocupar com a composição de cada fotograma, tudo nele parece milimetricamente colocado em seu devido lugar: o jogo de iluminação, a composição da mise-en-scène, a direção de arte, a escolha dos enquadramentos... Cada elemento da linguagem cinematográfica é usado com a sutileza de uma pincelada em um quadro que se pinta e com a precisão de um instrumento musical em uma orquestra.

    Para quem já é fã de westerns Três Homens em Conflito é um deleite sem igual, nele estão praticamente todos os elementos que se espera encontrar em um filme do gênero. Já para aqueles que não curtem o estilo, o longa de Leone continua sendo obrigatório, pois o que ele nos oferece é, no mínimo, uma verdadeira aula de cinema. Ultra-recomendado!


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