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    NA SOLIDÃO DA NOITE (1945) - REBOBINANDO CLÁSSICOS





    FICHA TÉCNICA

    Título Original: Dead of Night
    Ano: 1945 • País: UK
    Direção: Alberto Cavalcanti, Basil Dearden, Robert Hamer, Charles Crichton
    Roteiro: John Baines, Angus Macphail, H. G. Wells, E. F. Benson
    Produção: Michael Balcon
    Elenco: Mervyn Johns, Roland Culver, Frederick Valk, Mary Merrall, Renee Gadd, Barbara Leake, Anthony Baird, Judy Kelly, Miles Malleson, Sally Ann Howes, Michael Allan, Robert Wyndam, Googie Withers, Ralph Michael, Esme Percy, Basil Radford, Naunton Wayne, Peggy Bryan, Michael Redgrave, Hartley Power, Allan Jeayes, John Maguire


    ANÁLISE

    Na Solidão da Noite é um filme atemporal, muito adiante de seu tempo. Foi o precursor de um estilo de cinema de terror que se tornaria muito comum e adorado pelos fãs do gênero: uma junção de várias histórias, formando uma antologia, sempre com um personagem que funciona como o fio condutor entre os contos. Além disso, Na Solidão da Noite é um dos primeiros filmes de terror realizados na Inglaterra desde o começo da Segunda Guerra Mundial. A censura sempre foi muito forte na terra da Rainha, e até por isso, muitos filmes americanos não chegavam nem a serem exibidos no velho continente, pois eram considerados excessivamente violentos. Então era um território praticamente inexplorado.

    Pois bem, a trama tem o arquiteto Walter Craig como personagem que mantém o elo das diversas histórias sobrenaturais que irão se desenrolar durante o decorrer do filme. Craig sofre de pesadelos recorrentes com um grupo de pessoas que se reúnem em uma casa de campo. Noite após noite ele é atormentado pelo mesmo sonho. Até que em determinado final de semana, ele é contratado pelos proprietários de uma casa para realizar uma reforma, e lá em seu interior, ele encontra exatamente o mesmo grupo de pessoas e as mesmas situações vividas em seu sonho, que sempre teve um desfecho macabro. É como se ele tivesse uma espécie de premonição, e tudo que Craig vira em seu sonho, vai tornando-se realidade. Cada uma dessas pessoas ali presentes irá contar uma história fantástica diferente, cinco ao total, cada uma dirigida por um diferente diretor (inclusive o brasileiro Alberto Cavalcanti) e com roteiros individuais, e entre uma e outra, o psicanalista Dr. Van Straaten vai analisando o convidado e dando várias interpretações para seus sonhos e os diferentes acontecimentos contados por aquele grupo de pessoas, sempre procurando uma resposta cética e plausível.

    A primeira história, The Hearse Driver, dirigida por Basil Dearden e escrita por E.F. Benson, é contada pelo piloto de corridas Hugh Grainger, que após sofrer um grave acidente na pista, sobrevive milagrosamente. Ainda internado, ele tem uma estranha visão da janela do seu quarto: um misterioso cocheiro está parado em uma carruagem toda negra e sinistra que diz a ele “tem espaço para mais um, Senhor”, e desaparece em seguida. Hugh fica com aquilo na memória, até que após ter alta do hospital, ele está prestes a tomar um ônibus, quando o motorista é o mesmo que ele havia visto dirigindo a carruagem e fala novamente a frase: “tem espaço para mais um, Senhor”. Amedrontado, Hugh desiste de pegar o ônibus, que logo em sequência, perde o controle e cai de uma ponte. Ou seja, o estranho sonho salvou o piloto da morte mais uma vez.

    A segunda história é Christimas Party, dirigida por Cavalcanti e escrita por Angus MacPhail. Nela, a jovem Sally O’Hara está em uma festa de Natal em uma velha mansão, onde as crianças estão brincando de esconde-esconde. A garota é encontrada por Jimmy Watson, que a esconde no sótão para não serem descobertos, e na tentativa de assustá-la, conta a história de Francis Kent, um garoto que havia sido assassinado naquele mesmo local por sua irmã. Jimmy deixa o ambiente e Sally ouve o choro de um garotinho. Ao atravessar uma porta secreta no sótão, encontra um jovenzinho triste e perdido. Sally presta assistência a ele e o coloca na cama para dormir, para mais tarde, descobrir que não há nenhum garotinho no local e que ela acabara de ter um contato com o fantasma de Kent.

    The Haunted Mirror é a terceira e assustadora história, dirigida por Robert Hamer e escrita por John Baines. Contada por Joan Cortland que certa vez comprou um espelho para seu marido Peter de aniversário. O espelho outrora pertenceu a um antigo aleijado que assassinou sua esposa, e começa a refletir a personalidade doentia de seu primeiro dono para Peter, que passa a perder a sanidade, sendo levado pelas visões refletidas naquele terrível espelho, a ponto de quase matar a sua esposa. Já a quarta história, Golfing Story, dirigida por Charles Crichton e escrita por H.G. Wells, é a mais fraca de todas, com um desnecessário tom cômico que destoa de todo o resto da produção, onde dois jogadores de golfe rivais, George Paratt (o narrador da história) e Larry Potter disputam uma partida pelo amor da bela Mary Lee. Enganado por George, Larry comete suicídio entrando no rio, e passa a atormentar (não no sentido assustador da palavra, mas no sentido de aporrinhar mesmo) George, acompanhando-o até em seu casamento, já que não consegue voltar para o além por ter esquecido qual o ritual necessário para tanto.

    A quinta e última história, The Ventriloquist’s Dummy, é a cereja do bolo, a mais bem executada e macabra dentre todas (inclusive com a maior duração). Também dirigida por Alberto Cavalcanti e escrita por John Baines (o mesmo de The Haunted Mirror), aqui o Dr. Van Straaten descreve como foi convocado para fazer o diagnóstico de um prisioneiro, o ventríloquo de sucesso Maxwell Frere, que lotava todos seus shows graças ao humor ácido do boneco Hugo. Só que Frere é um esquizofrênico que sofre de dupla personalidade e credita ao boneco o real controle de sua vida. O boneco então, à procura de um novo ventríloquo, induz Frere a assassinar o rival Sylvester Kee. Por isso Frere vai parar na cadeia, completamente insano, jurando de pé juntos que a culpa era do boneco. Esse conto foi adaptado outras vezes, inclusive na famosa série Além da Imaginação, escrito por Rod Serling e com William “Capitão Kirk” Shatner no elenco e também inspirou o excelente Magia Negra, com Anthony Hopkins. Fora isso, o boneco do filme Gritos Mortais, de James Waan, lembra muito a aparência de Hugo.

    Assim que todos contam suas histórias, novamente o pesadelo do arquiteto vem à tona, e ele se vê na casa perseguido por todos os personagens dos contos apresentados até então, até acordar em sua cama, e ver que novamente foi vítima do mesmo sonho recorrente. Até receber uma ligação para visitar uma casa de campo que precisa de uma reforma, e voltar novamente ao local, como no começo do filme. Mas dessa vez é outro pesadelo, ou será a realidade? Fica a pergunta no ar. Bom, depois dessa resenha nem sobra muito sobre o que falar sobre Na Solidão da Noite. Somente que é um excelente filme de terror, e um dos melhores e mais inventivos do gênero. Indispensável para os fãs. 


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